sábado, 21 de janeiro de 2017

A COMUNIDADE [KOLLEKTIVET/ THE COMUNE]


A Comunidade (Kollektivet/ The Commune), Thomas Vinterberg, 2016.





O coletivo e o individual como paradoxos da condição humana


por Fábio Dantas Flappers


     Um casal. A necessidade de fugir da rotina e do caminho convencional. A ânsia por algo novo. Uma grande casa. Uma ideia. Uma experiência. Uma  pequena comunidade. Pessoas afins, vivendo coletivamente, tomando decisões em grupo, em prol do grupo. À espreita, a natureza humana. A inquietação. O desejo. O indefectível individualismo e imperfeição dos seres humanos. Promessas quebradas. Confiança perdida. Alianças partidas, que não fazem mais sentido. Estes são os elementos centrais de A Comunidade (Kollektivet/ The Commune), novo filme de Thomas Vinterberg, adaptado de sua peça teatral com o mesmo nome.  

A Comunidade reunida
  
     O dinamarquês Thomas Vinterberg é o real talento revelado pelo Dogma 95, o movimento cinematográfico do final do século XX que elegeu o purismo e o minimalismo como elementos centrais de sua estética e narrativa. Sem precisar se apoiar em polêmicas e apelações, Vinterberg  construiu uma carreira coerente e significativa, ainda que com altos e baixos. Surgiu para o mundo com o aclamado e impressionante Festa de Família (Festen/ The Celebration), de 1998,  ganhando indicação ao Globo de Ouro de Filme Estrangeiro e tornando-se o novo menino prodígio do cinema na virada do século; com o interessante e pouco convencional Dogma do Amor (It’s All About Love), 2003,  misto de sci-fi, thriller e romance, fez sua primeira incursão hollywoodiana, dirigindo Joaquin Phoenix, Claire Danes e Sean Penn; no ano seguinte, ainda em uma co-produção em Hollywood, realizou o extraordinário e subestimado Querida Wendy (Dear Wendy), 2004, pérola pouco vista com performance brilhante do jovem Jamie Bell; finalmente em 2013 é indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar de Filme Estrangeiro por A Caça (Jagten/ The Hunt).  Todas estas obras tem um forte viés antropológico, tratando de pessoas unidas por fortes laços – sejam familiares, de amizade, de vida em comunidade – que precisam de adequar, se amparar, se defender ou se afastar de seus pares.

Trine Dyrholm, excelente como Anna

     A Comunidade não tem a força de Festa de Família ou Querida Wendy, estudos contundentes, com tons trágicos, sobre seus microcosmos. Nem é o pequeno universo mais interessante já criado por Vinterberg. O filme não desenvolve plenamente suas ideias e soa glacial em muitos momentos, assim como a ilusão de uma sociedade plenamente igualitária, uma utopia considerando que cada ser humano é único, com vontades, habilidades e interesses diferentes. Pode haver homogeneidade no todo, desde que se reconheça que cada um é diferente.  Ainda assim, o filme consegue despertar interesse e simpatia por apresentar uma atmosfera muito pessoal da década de setenta. Ponto para a fotografia e o design de produção, ambos notáveis e quase personagens vivos. Ponto também para a coesão do elenco, no qual brilha Trine Dyrholm, como Anna. O talento da atriz, sua força em cena e a assinatura de Vinterberg, um cineasta que sempre tem algo a dizer, são os pontos altos do filme, e fazem deste uma obra que, ainda que não brilhante,  merece ser vista.

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