quarta-feira, 23 de março de 2016

INCÊNDIOS



 


Herança de Sangue

Por Fábio Dantas

           
          E quando passado e futuro convergem para uma realidade devastadora? E quando se descobre que sua história é apenas o epílogo de uma história que começou há muito, muito tempo atrás? E quando rastros pretéritos e insondáveis se materializam em uma complexa equação? E quando uma luta é iniciada de forma abrupta, levando a um poderoso nocaute, onde nenhum dos envolvidos é vencedor, onde ninguém fica de pé? E quando se encara, se experimenta, se sente, se vivencia o inexprimível? E quando 1+1=1?

Mãe e filhos: herança de sangue

Nawal e os espectros do passado

          O libanês-canadense Wajdi Mouawad criou em Incêndios (Scorched) uma trama riquíssima e extremamente atual, um panorama de embate entre universos paralelos: o velho e o novo mundo; a guerra e os subsequentes tempos de (suposta) paz; a inocência e a desilusão; o idealismo e o radicalismo; a liberdade e o aprisionamento, e ainda o aprisionamento em liberdade; as marcas na pele e as cicatrizes na alma, ambas tatuadas em definitivo; o conforto dos céus e o castigo dos céus; ao final, a explosão, a catarse, a perplexidade, o aniquilamento, o prosseguir. A árida trajetória de Nawal Marwan é toda permeada por antíteses e cabe aos seus filhos Simon e Jeanne a herança de amarrar todas as pontas soltas do cruel emaranhado criado pelo destino. E prosseguir, sobreviventes da tragédia que são.


      
          A montagem brasileira de Incêndios, dirigida por Aderbal Freire-Filho, é magistral. É um daqueles raros espetáculos teatrais que consegue atingir sucesso de crítica e o público e ser amplamente premiado, sem fazer qualquer concessão, sem deixar de se manter absolutamente fiel ao material original. O que parece tão óbvio e natural acaba sendo um feito notável em tempos de pobreza intelectual, patrocinadores com visão limitada e sem arrojamento e público preguiçoso e superficial, onde um drama com raízes na tragédia é visto como “tema difícil”. Ponto para todos os envolvidos: produção, patrocinadores, espectadores. Prova de que obras de qualidade tem espaço, basta que recebam o devido incentivo e respeito. Prova inconteste de que a Arte pode e deve vencer. Com o texto pungente de Wajdi Mouawad, Aderbal Freire-Filho realiza uma montagem de fato inesquecível, que atinge resultados altíssimos e já se inscrevendo como um momento ímpar no recente teatro brasileiro. Este projeto triunfal foi idealizado pelo produtor e ator Felipe de Carolis, que comprou os direitos de montagem após assistir a excelente versão cinematográfica da peça, dirigida pelo canadense Denis Villeneuve, em 2010. É admirável um ator tão jovem ter conseguido levantar um projeto tão superlativo e despertar o interesse de lendas do teatro brasileiro como o diretor Aderbal Freire-Filho e a atriz Marieta Severo, tornando-os parceiros na empreitada. O trio reuniu uma equipe técnica de alto nível e como maestro, Aderbal opta por uma direção sóbria, limpa, que evita recursos “moderninhos e descolados”, tão em voga atualmente; inteligente, evita qualquer excesso que possa desviar a atenção do essencial: o texto e seu excepcional elenco.
O diretor Aderbal Freire-Filho e a protagonista Marieta Severo

Felipe de Carolis, idealizador e produtor de um triunfo teatral

          Em Incêndios temos um elenco orgânico, absolutamente entrosado e com altíssimo rendimento em cena. Não há um intérprete destoando do excelente nível da montagem. Fabianna de Mello e Souza, Marcio Vito e Flávio Tolezani estão ótimos em cena, tendo o último um personagem pequeno, porém essencial para a trama. Isaac Bernart, como os parceiros anteriores, desempenha vários personagens, e imprime a cada um identidades distintas, tendo seu maior momento como o apaixonado de Nawal, construído com energia, jovialidade e esperança contagiantes. Keli Freitas é excelente como Jeanne. Cerebral, precisa, introspectiva e respeitosa diante da última missão deixada por sua mãe, a personagem é fascinante e Keli brilha, modulando com inteligência suas fases distintas, inclusive nos momentos de fragilidade ao final. Felipe de Carolis, além de todos os méritos como idealizador e produtor do projeto, constrói seu Simon de forma gradativa, o que condiz com o amadurecimento do rapaz durante a narrativa. O Simon indiferente e rebelde do início termina a peça paralisado, mudo, perplexo. O ator guarda o melhor para o fim e Simon torna-se homem diante de nossos olhos. Os gêmeos chegam ao final de sua missão transformados e os signos que Keli e Felipe usam são um grito e um olhar petrificado. Os gêmeos, que no início do espetáculo que disputam espaço no ventre materno, entrelaçados, chegam ao final de sua missão transformados. E mais entrelaçados que nunca.

Felipe de Carolis, Keli Freitas e Márcio Vito
Isaac Bernat

Keli Freitas

Felipe de Carolis

Keli Freitas e Felipe de Carolis como os gêmeos Jeanne e Simon
        

          Kelzy Ecard merece uma nota à parte. Ela interpreta Sawda, amiga de Nawal, que entra para a guerrilha. Que atriz extraordinária! Kelzy é uma daquelas atrizes capazes de trazer todas as luzes para si e sua personagem. Nos presenteia com uma performance eletrizante, cheia de som e fúria, que derrama vida e verdade em cada palavra. A personagem não tem tanto tempo em cena, mas a presença de Kelzi é tão arrebatadora que se faz presente durante todo o espetáculo. Assistir Kelzy em cena é uma experiência transcendental, quase milagrosa. Todas as reverências parecem insuficientes para uma atriz tão excepcional!
Kelzy Ecard, em performance monumental

Nawal e Sawda em ponto de ebulição
 
          Além de protagonista, Marieta Severo é produtora da peça e dona do Teatro Poeira, onde o espetáculo estreou. Em Incêndios, Marieta comemora cinquenta anos de carreira, depois de afastada do teatro há anos e se dedicando apenas a uma série de TV. Temos uma artista das mais relevantes, talentosas, fascinantes e conscientes do país em seu momento de coroação. Todas as Nawals que desfilam diante de nós – a menina apaixonada, a jovem mãe desesperada, a cidadã indignada com a política de sua nação, a prisioneira resistente, a mãe madura fechada, a morta que vai desvelando os acontecimentos – são construídas com talento e sutileza impressionantes, fruto de uma pesquisa apuradíssima. Marieta é uma atriz brilhante em pleno domínio de seu talento.

Marieta Severo como Nawal: uma atriz em pleno domínio de seu talento
 
           Incêndios é um triunfo, sob todos os prismas. Um espetáculo forte, comovente, magistralmente defendido por toda a sua equipe. Uma obra rara e essencial para o teatro, o mundo e cada um de nós.                   


INCÊNDIOS
De Wajdi Mouawad
Direção: Aderbal Freire-Filho

ELENCO
Marieta Severo
Felipe de Carolis
Keli Freitas
Kelzy Ecard
Marcio Vito
Isaac Bernat
Flávio Tolezani
Fabianna de Mello e Souza

Cenografia: Fernando Mello da Costa
Iluminação: Luiz Paulo Nenen
Figurinos: Antonio Medeiros
Trilha Sonora: Tato Taborda
Direção de Produção: Maria Siman
Produção Executiva e Administração: Luciano Marcelo
Tradução: Angela Leite Lopes
Gerente de Projetos: Gabriela Mendonça
Produtores: Maria Siman, Felipe de Carolis e Marieta Severo
Produtor associado: Pablo Sanábio
Idealização do Projeto: Felipe de Carolis
Realização: Primeira Página Produções, E_merge  e Teatro Poeira.