domingo, 15 de outubro de 2017

A Temporada de Oscar está aberta com "Me Chame Pelo Seu Nome"



Timothée Chalamet in Luca Guadagnino's "Call Me By Your Name", 2017

por  Fábio Dantas Flappers  
(*Frames do Festival do Rio 2017)



"Me Chame Pelo Seu Nome" é grande cinema!
Timothée Chalamet oferece uma performance inesquecível, repleta de força, vulnerabilidade, inteligência e desafiadora inquietação. Elio é absolutamente fascinante! Que ator! Chalamet é aposta certa para uma indicação ao Oscar de Melhor Ator.  
Este filme é um sério competidor na Temporada de Oscar em várias categorias: a direção de Luca Guadagnino, o roteiro de James Ivory, Michael Stuhlbarg como ator coadjuvante, fotografia, design de produção, trilha sonora e canção original, "Mistery of Love", de Sufjan Stevens. 
"Me Chame Pelo Seu Nome" é um filme notável e único. Bravo!

"Call Me By Your Name" is great cinema!
Timothée Chalamet delivers a unforgettable performance, full of strenght, vulnerability, intelligence and challenging restlessness. Elio is absolutely fascinating! What a actor!
Chalamet is a lock for an Academy Award nomination as Best Actor.
This movie is a serious contender for Oscar Season in several cathegories: Luca Guadagnino's direction, James Ivory's screenplay, Michael Stuhlbarg as supporting actor, cinematography, production design, orginal score and original song, Sufjan Stevens's "Mistery of Love". 
It's a remarkable and unique film. 
Bravo!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

OS 50 MAIORES FILMES DO SÉCULO XXI (2001-2016)

OS 50 MAIORES FILMES DO SÉCULO XXI (2001-2016)


Prestes a entrar na segunda década deste século e com mais listas proliferando, decidi postar os 50 filmes essenciais de 2001 a 2016.
Listas sempre refletem contextos, o tempo presente e gostos pessoais; imutável, porém, é a qualidade das obras, que matizadas pela pátina do tempo, podem crescer ainda mais. Ao tempo, resiste a Grande Arte.

 O FILME DO SÉCULO XXI

"Sangue Negro" (There Will Be Blood), de Paul Thomas Anderson, 2007



Paul Thomas Anderson gosta de outsiders. John de Hard Eight é um outsider. Eddie de Boggie Nights – Prazer Sem Limites (Boggie Nights)  e Barry de Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love) também. Assim  como Freddie de O Mestre (The Master) e Larry de Vício Inerente (Inherent Vice). Tal qual Linda, Frank, Claudia, Donnie, Stanley e tantos outros de Magnolia. São pessoas que seguem caminhos – ou descaminhos – muito particulares, fora do tipo por comum, que não de adequam, que parecem deslocados, sempre em busca de algo que nem sabem o que é. De muitos modos, soltos na imensidão do mundo; de várias formas, presos no interior de si mesmos. Porém, sempre capazes de despertar em cada um de nós identificação, simpatia, piedade e carinho.
Nenhum filho de Anderson – ou mesmo personagem do cinema recente – pode causar menos empatia que Daniel Plainview de Sangue Negro (There Will Be Blood).
Se Anderson fecha o século XX com uma canção entoada em uníssono por vários personagens convergentes em Magnólia, inicia o século XXI com o silêncio profundo da introspecção de um personagem uno em Sangue Negro.
Sangue Negro é uma sinfonia composta por notas dissonantes, complexas, que executadas por artistas com pleno domínio de seu ofício, compõe um conjunto de harmonia perfeita, que atinge o sublime. Os instrumentos são diversos: a trilha sonora acachapente e extraordinária de Jonny Greenwood; a fotografia de Robert Elswit, que faz do deserto em fogo e petróleo um espetáculo; a edição de Dylan Tichenor que se alterna entre o contemplativo e o frenético ; a organicidade de um elenco que se posiciona em seu exato lugar, com destaque para um Paul Dano impressionante. Todos os instrumentos servindo ao solista Daniel Day-Lewis, que com sua performance interiorizada e explosiva, capaz de gelar e incendiar com o mesmo olhar, atinge o auge de sua carreira. É uma das grandes performances da História do Cinema, absolutamente magistral, que fez Day-Lewis ator imortal. Todos os instrumentos regidos pelo Maestro Paul Thomas Anderson, que escreve - a partir da novela de Upton Sinclair – e dirige uma das obras mais impactantes e essenciais do cinema contemporâneo.
Sangue Negro é uma investigação profunda do lado mais sombrio do ser humano, de seu ímpeto por cobiça, de sua incomunicabilidade, de sua profunda solidão e de sua falência moral, espiritual e existencial. Até agora, é o filme do século.

OS 50 MAIORES FILMES DO SÉCULO XXI (2001-2016) 

TOP 10
1. “Sangue Negro” (There Will Be Blood") Paul Thomas Anderson, 2007
2. "Moulin Rouge!", Baz Luhrmann, 2001
3. “O Aviador” (The Aviator), Martin Scorsese, 2004
4. "O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain), Ang Lee, 2005
5. "Synecdoche, New York", Charlie Kaufman, 2008
6. "As Horas” (The Hours), Stephen Daldry, 2002
7. "Amor sem Escalas” (Up in the Air), Jason Reitman, 2009
8. "A Rede Social” (The Social Network), David Fincher, 2010
9. "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford), Andrew Dominik, 2007
10. “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” (Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), Alejandro G. Iñárritu, 2014

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11. “Meia-Noite em Paris” (Midnight in Paris), Woody Allen, 2010
12.
"A Invenção de Hugo Cabret” (Hugo), Martin Scorsese, 2010
13. "Closer – Perto Demais" (Closer), Mike Nichols, 2004
14. "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), Michel Gondry, 2004
15.
"Mommy", Xavier Dolan, 2014
16. "Carol", Todd Haynes, 2015
17. "O Mestre” (The Master), Paul Thomas Anderson, 2012
18. “La La Land (La La Land), Damien Chazelle, 2016
19. “Manchester À Beira-Mar” (Manchester by the Sea), Kenneth Lonergan, 2016
20. "Casa Vazia” (Bin-jip/ 3- Iron), Ki-Duk Kim, 2004
21. A Origem” (Inception), Christopher Nolan, 2010
22.
"Gravidade” (Gravity), Alfonso Cuarón, 2014
23. "Desejo e Reparação” (Atonement), Joe Wright, 2007
24.
"Amantes” (Two Lovers), James Gray, 2008
25.
"A.I. Inteligência Artificial” (A.I. Artificial Intelligence), Steven Spielberg, 2001
26. "A Fita Branca” (Das weiße Band / The White Ribbon), Michel Haneke, 2009
27. "Quatro Minutos” (Vier Minuten/ Four Minutes), Chris Kraus, 2006
28. "Zodíaco" (Zodiac), David Fincher, 2007
29. "As Vantagens de Ser Invisível” (The Perks of Being a Wallflower), Stephen Chbosky, 2012
30.
"21 Gramas" (21 Grams), Alejandro G. Iñárritu, 2003 31. "Acima das Nuvens” (Sils Maria / Clouds of Sils Maria), Olivier Assayas, 2014
32. "Querida Wendy” (Dear Wendy), Thomas Vinterberg, 2004
33. "Ponto Final – Match Point” (Match Point), Woody Allen, 2005
34.
"O Segredo dos Seus Olhos” (El Secreto de Sus Ojos/ The Secret in Their Eyes), Juan José Campanella, 2009
35.
"Drive", Nicolas Winding Refn, 2011
36. "Azul É a Cor Mais Quente” (La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2/ Blue is the Warmest Color), Abdellatif Kechiche, 2013
37. "Sin City – A Cidade do Pecado” (Sin City), Frank Miller and Robert Rodriguez, 2005
38. "Ela” (Her), Spike Jonze, 2012
39. "A Professora de Piano” (La Pianiste/ The Piano Teacher), Michael Haneke, 2001
40. "Dogville", Lars von Trier, 2003
41. "O Pianista” (The Pianist), Roman Polanski, 2002
42. "Pieta” (
피에타/ Pietà), Ki-Duk Kim, 2012
43. "Filhos da Esperança” (Children of Man), Alfonso Cuarón, 2006
44. "Toy Story 3", Lee Unkrich, 2010
45. "Bravura Indômita” (True Grit), Ethan Coen & Joel Coen, 2010
46. "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” (The Lord of the Rings: The Return of the King), Peter Jackson, 2003
47. "Longe do Paraíso” (Far from Heaven), Todd Haynes, 2002
48. "Fale com Ela” (Hable con Ella/ Talk to Her), Pedro Almodóvar, 2002
49. "A Vila” (The Village), M. Night Shyamalan, 2004
50. "Os Outros” (The Others), Alejandro Amenábar, 2001




domingo, 22 de janeiro de 2017

ANIMAIS NOTURNOS [NOCTURNAL ANIMALS]



"Animais Noturnos" (Nocturnal Animals), Tom Ford, 2016.


Noir Contemporâneo e Metalinguístico faz elegia à Vitória do Herói Romântico



por Fábio Dantas Flappers


Prólogo: Nos últimos anos, o Cinema nos deu duas obras superlativas, prestam um tributo à Literatura, em uma engendrada teia metalinguística onde realidade e ficção e autor e personagem são fundidos de forma brilhante e surpreendente. Em As Horas (The Hours), de Stephen Daldry, 2002, acompanhamos a lendária escritora Virginia Woolf (em performance assombrosa e premiadíssima de Nicole Kidman) durante o processo de produção de Mrs. Dellaway em 1923, obra que influenciará diretamente as vidas de Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa em 1951 e Clarice Vaughan (Meryl Streep), uma editora literária em 2001. Em Desejo e Reparação (Atonement), de Joe Wright, 2007, a escritora Briony Tallis, em três fases de sua vida (as espetaculares Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Redgrave), manipula, rascunha, cria e recria a vida e a história de amor de sua irmã Cecilia (Keira Knightley) e Robbie Turner (James McAvoy). Ambos os filmes são permeados por signos, elipses e referências acerca do ato de criação, do elemento autobiográfico – em maior ou menor grau – presente em toda obra e da sensação de onipotência que todo escritor tem em si, a sensação  de brincar de Deus dentro de seu universo  criativo. Aos lado dos filmes anteriores podemos acrescentar mais um: Animais Noturnos  (Nocturnal Animals), de Tom Ford, 2016.



Capítulo 1: Nova York. Noite. Neve. Edward e Susan se reencontram na rua anos depois da Universidade. Há algo lúdico e romântico no ar. Eles conversam, flertam discretamente, marcam um jantar. Neste, descobrem afinidades,  fazem revelações, trocam confidências. Estabelecem aquela misteriosa e fascinante intimidade que surge entre estranhos, ou meros conhecidos.  Se apaixonam. Decidem se casar. Não tem a aprovação da mãe de Susan. Ainda assim, se casam.  Edward está escrevendo sua primeira obra. Como sua mãe lhe alertara, Susan passa a ver Edward como romântico, sonhador, sem senso prático. O casamento entra em crise. Pontos de vista divergentes. Ideais divergentes. Susan se permite flertar com outro homem. Susan comete um ato irreversível, definitivo. Susan deixa Edward de vez. 

Edward e Susan, afinidades, confissões e despertar de amor

Capítulo 2: Los Angeles. Noite. Fogos de artifícios e luzes artificiais. Mulheres obesas, nuas e provocantes de exibem sensualmente. Figuras robustas que poderiam soar renascentistas, mas que estão muito mais para criaturas barrocas. Fazem parte de uma performance na Galeria de Arte de Susan. Há algo fake e kitsch no ar. Susan sente-se aprisionada em um casamento mecânico com Hutton, um empresário distante e infiel, o homem por quem abandonou Edward há quase vinte anos. Susan sente-se infeliz, vazia, em um mundo de aparências, adornado por frivolidades e suportável com o uso de tranquilizantes. Um mundo frívolo e superficial, como boa parta de arte contemporânea que vende. Inesperadamente, recebe um manuscrito de "Animais Noturnos",  o novo romance de Edward. Ele avisa que está na cidade para o lançamento da obra e gostaria de vê-la. Susan descobre que o livro é dedicado a ela e começa a leitura. Em pouco tempo está totalmente absorta e profundamente tocada pela obra de Edward.

Susan: arrebatada pela obra de Edward

Capítulo 3: Texas. Tarde. Sol e poeira. Tony (novamente Jake Gyllenhaal, contraparte do autor vestido de personagem), sua mulher Laura (Isla Fischer) e filha India (Ellie Bamber) embarcam em uma viagem de carro pelo Texas. Decidem viajar a noite toda sem pausas. Na estrada deserta e sem sinal de mobile, percebem dois carros dirigindo paralelamente, ambos na mesma baixa velocidade. Tony tenta ultrapassar um dos carros para seguir adiante, mas os motoristas reagem com hostilidade e passam a provocar e intimidar a família, até cercar seu carro e fazê-los parar. Os motoristas são de três homens, liderados por Ray. Há algo soturno e ameaçador no ar. Laura e India, respectivamente reagem com medo e revolta, enquanto Tony procura ser conciliador e resolver a situação pacificamente. Gradativamente, o pânico e a tragédia se impõe nas estradas do árido sudoeste americano. 

Pesadelo de uma família: Ray e sua gangue atacam Tony...

... Laura e India em plena estrada deserta
 
Notas do Crítico: Tom Ford cria uma obra singular. Se já  tinha deixado uma excelente impressão  com Direito de Amar (A Single Man), 2009, aqui vai além. Ao adaptar a novela Tony and Susan, de Austin Wright, Ford cria um filme noir contemporâneo, com um universo  extremamente particular, que vai  idílico ao kitsch, do grotesco ao realista, em uma atmosfera instigante e intrigante. Como já dito, o filme é absolutamente metalinguístico, repleto de códigos internos e referências que o espectador só vai desvendando com o decorrer da narrativa. Nenhuma peça está ali por acaso. Tudo o que a olhos desatentos pode parecer desconexo, gratuito, mesmo apelativo e em desalinho é absolutamente proposital. Todos os signos e pistas estão às claras, basta atenção e percepção  para decodificá-los. Um exemplo são os personagens coadjuvantes que interagem com Susan  - com exceção de seu marido Hutton, também presente no passado. Sua mãe Anne Sutton (Laura Linney), seus amigos Alessia (Andrea Riseborough) e Carlos (Michael Sheen), suas assistentes Sage (Jena Malone) e Alex (Zawe Ashton) e sua filha Samantha (India Menuez), todos tem uma única cena  no filme. Todos fazem pequenas aparições,  são  quase espectros, peças meticulosamente escolhidas para pontuar aspectos da personalidade de Susan - ou servir como sua consciência. Muito da aura do filme se deve à fotografia de Seamus McGarvey e sobretudo ao Desenho de Produção e Decoração de Cenários de Shane Valentino e Meg Everist, quase personagens servindo à narrativa.  Os cenários evocam um mundo materialista, regido por ostentação e pretensões gigantescas, que mais revelam sua fragilidade, gosto duvidoso e seu caráter descartável,  asséptico e impessoal. 

Tom Ford dirigindo Jake Gyllenhaal e Michael Shannon

Ford mostra-se um exímio diretor de atores e conta com um elenco estrelar e talentoso, bastante homogêneo e consciente de seu espaço. Adams  tem um papel difícil, que embora complexo é carregado de neutralidade, e nos passa toda a frustraçao e melancolia de Susan, atingindo seu ponto máximo na cena final, com olhar e silêncio potentes. Excelentes estão Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson e Laura Linney. Shannon é marcante e incisivo  como o policial Bobby, que vai guiar Tony na busca pelos criminosos;  pragmático, realista e cru, é o contraponto perfeito ao relutante Tony. Taylor-Johnson tem o melhor momento de sua carreira como o hipnotizante e assustador Ray, em uma composição que em nenhum momento cai na caricatura ou no exagero. Linney é grande em sua única cena, como a Sra. Sutton, mãe de Susan, lançando uma sentença que se revelará vital para a trama, comprovando a impressionante sagacidade das mãe sobre seus filhos. Gyllenhaal, o melhor ator de sua geração ao lado de Andrew Garfield e Ryan Gosling, tem mais um grande momento em uma carreira que segue irretocável. Edward é cativante em seus anos de juventude, e sua imagem se mantém onipresente, mesmo que quase invisível no tempo presente. Tony é frágil e comovente como o marido e pai devastado, destruído pela culpa e remorso, e convincente como o homem que se torna mais resistente e incisivo pela dor. Tony acaba funcionando como a imagem perfeita do herói trágico, em um intrigante inversão de espelhos criada por Edward.

Michael Shannon: detetive Bobby
Aaron Taylor-Johnson: Ray, delinquente e criminoso

Laura Linney: Sra. Sutton, mãe de Susan

O tempo presente é de Susan, é todo construído sobre suas insatisfações e desilusões, Contudo, embora o presente seja o ato de Susan, é Edward quem o conduz. É sua obra ficcional com tons autobiográficos que atinge a vida de Susan e abala sua rotina monocórdia, trazendo alguma luz e cor ao seu universo monocromático. Com sua obra de ficção, Edward exorciza seus fantasmas, trabalha seus traumas e realiza seu acerto de contas com o passado. Não cabe tentar descobrir as contrapartes ficcionais dos personagens reais. Não cabe adivinhar se Tony é Edward ou Susan, se Laura ou Ray espelhos da própria Susan ou se Bobby representa o alter ego forte de Edward. Todos são partes de Edward, pois ele está acima de todos, é o autor-criador. Estabelece um paradoxo se pensarmos na analogia com o conceito da morte do autor, de Barthes. Edward pode ser invisível, e também pode ser todos, pode ser partes, pode construí-los com fragmentos de si mesmo, de Susan, da Sra. Sutton, de sua própria filha. Pode ser todos e nenhum.
 
Edward e Susan em dias felizes
Edward faz uma descoberta chocante
Susan, surpresa com uma triste constatação.

Epílogo: Edward é o herói romântico. Idealista, um pouco ingênuo, sonhador.  O artista por excelência. Que precisa de incentivo, de apoio, de compreensão. Que persiste e acredita. Que, diante das rasteiras da vida e das cicatrizes que sempre vão arder, ainda insiste em ficar de pé. Que, ainda que tardiamente e com tempo defasado, crê poder chegar em seu objetivo e conquistar o seu lugar. Edward queria a confiança de sua amada. Queria que ela se mantivesse fiel a ele: "Quando você  ama alguém,  tem que ter cuidado com isso. Você pode nunca mais ter isso novamente". Edward foi menosprezado, desacreditado, traído. Mas teve forças para criar uma obra-prima feita de lágrimas e sangue, com a qual finalmente obteve reconhecimento e provou ser um grande escritor. E ainda pode dar sua mensagem final: ele venceu. Ele, tido por fraco, sempre foi realmente o forte. Susan, seu grande amor, tornou-se apenas uma escada para seu triunfo. Uma estátua que bem podia constar no acervo de sua galeria, sentada sozinha em um restaurante vazio, contemplando o que podia ter sido.


sábado, 21 de janeiro de 2017

A CHEGADA [ARRIVAL]


"A Chegada" (Arrival), Denis Villeneuve, 2016. 


Na Trilha Reversa do Desdobrar do Ciclo da Vida


por Fábio Dantas Flappers


...louise...hannah...chegada...viagem...passagem...portal...vida...morte...nascimento...existência...genealogia...cronologia...continuidade...narrativa...linguagem...memória...déjà vu...relativo...absoluto...paralelo...recomeço...fim...início...looping...
      

     Microcosmo e macrocosmo. Somos indivíduos dentro de um universo infinito. Cada um de nós com escolhas capazes de mudar o curso de nossa vida e do universo inteiro. A inteligência e o livre-arbítrio são atributos humanos, de origem divina. De uma esfera superior. De uma ordem maior. Com um propósito maior. 

Dra. Louise Banks (Amy Adams), linguista convocada pelo Governo...

     Dra. Louise Banks (Amy Adams), renomada linguista, é convocada pelo Governo dos EUA para uma missão urgente: decodificar a linguagem dos alienígenas que chegaram a Montana em uma nave. Em doze pontos diferentes da Terra naves ovais surgiram, fazendo com que os líderes mundiais montem QGs interligados para lidar com a situação e descobrir as intenções dos visitantes. Acompanhamos a incursão de Louise na missão, sempre sob o seu ponto de vista - detalhe importantíssimo - e descobrimos com ela seus desdobramentos. Quanto mais o filme avança em direção ao universal, mas se aproxima do pessoal, do individual, do íntimo. Em todo o percurso somos convidados com Louise a embarcar no contraste entre a imensidão do todo e a interiorização do ser. A tensão entre estas forças é latente e se mantém suspensa por todo o filme. Ao final, as peças se encaixam formando um todo, em seu próprio tempo, com sua própria lógica. 

... para estabelecer contato e decifrar a linguagem de aliens...

...e que acaba descobrindo mais sobre os humanos...
     
     Denis Villeneuve se consagrou com Incêndios (Incendies), notável filme canadense baseado em peça de Wajdi Mouawad. Indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, logo chamou a atenção de Hollywood e realizou o ótimo Os Suspeitos (Prisoners) e o interessante Sicario. Nestes filmes, temas como identidade, alocação, deslocamento e o advento de um fato inesperado que trará uma reviravolta existencial no protagonista são uma constante - sempre muito bem trabalhada. Mas é O Homem Duplicado (Enemy) - sua melhor obra até a data, juntamente com "Incêndios - o filme gêmeo de "A Chegada". Os protagonistas de ambos - Adam/Anthony (Jake Gyllenhaal) e Louise (Amy Adams) adentram, bem reticentes, em jornadas que, embora de natureza muito diversa, levam a um destino e conclusão surpreendentes e, até onde é possível dizer sem revelar além do conveniente, absolutamente pessoais. Mais que pessoais, personalizadas. Em ambos, os atores oferecem performances extraordinárias e são fatores essenciais para a credibilidade e êxito de seus filmes. Neste, a sempre excelente e especialmente iluminada Adams constrói sua Louise de modo comovente, mesclando força, tristeza, incerteza e esperança em doses admiravelmente equilibradas. Muito da magnitude do filme - a maior parte, aliás - reside em Adams. 

...sobre si mesma e sobre o desdobrar em reverso do ciclo da vida.

     Em um gênero tão rico como ficção científica, que propõe uma aliança entre Arte e Ciência, sempre orbitando em torno da Filosofia, da religião e de questões existenciais, "A Chegada" se impõe com dignidade, porém não atinge uma dimensão mais profunda. Neste sentido, o título inicial do filme e do conto de Ted Chiang que lhe deu origem, Story of Your Life (História da Sua Vida), é muito mais preciso. Ao optar por se estruturar sobretudo no humano, o filme não atinge a estratosfera mítica de obras-primas absolutas do gênero como 2001 - Uma Odisséia no Espaço (2001 - A Space Odyssey), de Stanley Kubrick, Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind), de Steven Spielberg e Contato (Contact), de Robert Zemeckis. Nestas, o humano também está demasiadamente presente. Mas além dele, há a força vital do espaço, seus misterios insondáveis. O espaço, a vida vinda de outros planetas e a relação de seus seres com os seres da Terra constituem o foco, a força motriz e razão primária. Em "A Chegada", acaba relegado a ser apenas o meio. Ainda com esta lacuna que pode soar decepcionante, é uma bela jornada.

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